jusbrasil.com.br
17 de Dezembro de 2018

#1 Diário de um advogado criminalista: a distância para levar a justiça

Gleisson Dias, Advogado
Publicado por Gleisson Dias
há 6 meses

long distance runner

Mais uma daquelas esposas me ligou, numa terça-feira qualquer, me dizendo que prenderam o amor da sua vida, LHC, sob a suspeita do delito de tráfico de drogas. Sem saber do que se tratava, perguntei de onde ela falava, ao passo que me respondeu que era da capital gaúcha, a qual fica cerca de 86km do meu escritório, localizado em Taquara/RS. Como não há distância física que impeça a formulação de contratos, fechamos o negócio. Restou que ela pouco sabia da situação dele, limitando-se apenas a me informar que ele estava preso preventivamente em Osório, cidade dos “bons ventos” como diria um poeta. Mas como não sou poeta, diligenciei como um vento para lá e fui em busca de verdades e soluções para o caso, afinal de contas, sem advogado, não há justiça.

Entrei naquela muralhada chamada Penitenciaria Modulada Estadual de Osório, localizada em zona rural sem nada por perto, apenas matagais, campos, matagais, campos, e pelo que vi… Acho que nada mais e nada menos que uns 10 km até algum posto qualquer de atendimento (mercado, posto de gasolina, parada, tipo essas coisas)

Entrando lá, colhi a assinatura do rapaz, sem com isso saber o número do processo, apenas, segundo ele, que foi surpreendido na localidade de Quintão, além de me contar o restante da situação que gerou esse problema — e aqui abro parênteses, isso fica comigo, pois estou apenas contando uma história para ti, mas o sigilo sobre os fatos em relação ao cliente ficará resguardado comigo pela ética e sobriedade da advocacia, ok?

Continuando… Saindo de lá do presídio, eu estava quase a caminho de Tramandaí/RS, crente que o processo estava lá, mas parei o carro e com pouca bateria no celular busquei as comarcas próximas, pois suspeitava que o dito processo estava seguindo o seu percurso no fórum de Palmares do sul/RS, ou seja, eu teria que percorrer mais uns 60km. Resolvi, então, ligar para lá e a telefonista não queria me atender sob a mesma alegação de costume que já ouvi tantas vezes que até esqueci quantas foram: “só damos informações a partir das três e meia, senhor”, e na sequência respondi “três e meia? olha, agora é meio-dia, estou no meio do nada, preciso de uma informação e não seria racional eu ficar aqui plantado e esperar cerca de três horas e meia ou ir até aí, percorrer 120km (ida e volta), na incerteza do processo não estar aí, então, por favor, é uma situação excepcional, passe-me para o pessoal do cartório”, a moça foi solícita e fez o que eu pedi, fui bem atendido pelo cartório, expliquei a minha situação e eles me forneceram a informação: o processo estava lá. Viu só? E não doeu nada. Às vezes é necessário dar aquela insistida, ou não conseguirá o que quer, capiche?

Em direção ao fórum e ouvindo boa música, jazia adiante, depois de uns 20km, uma estrada ruim, ruim, e ruim, pense numa estrada ruim.

Até que finalmente cheguei lá… Cidade pequena, tranquila e bonita. Boa impressão tive.

Peguei o processo, apresentei a resposta da acusação que faziam a LHC. Como outro colega anteriormente havia feito um pedido de liberdade à juíza, eu deixei quieto e propus habeas corpus diretamente ao Tribunal Gaúcho, alegando que a magistrada, de modo genérico, havia decretado a prisão de LHC porque “a venda de substâncias entorpecentes é um dos maiores males que atinge nossa sociedade nos dias atuais.”

Mais de 300 km em um dia cansa, mas a caminhada pela justiça, às vezes, supera o físico; está além das forças, está nas virtudes!

Continua…

Continuarei essa história na próxima publicação!

Até a próxima!

8 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

@gleissondiaz18 Senti que li um conto noir numa noite de domingo; muito bom. Vou acompanhar esse diário! continuar lendo

Certo hehe
Obrigado pelo feedback :) continuar lendo

Mal posso esperar pela continuação! continuar lendo

Opa, que bom que gostou, vai acompanhando, pois logo logo darei sequência a essa história. :D continuar lendo

Excelente trabalho.
Muito obrigado. continuar lendo

Muito obrigado, colega!! continuar lendo

Sempre essa famigerada Lei de drogas e sua aplicação pelos órgãos de atuação penal.

Quantas vidas perdidas...

O rótolo de traficante é causa de excludente de humanidade em virtude de uma uma programação coletiva que seleciona pessoas que devem ser excluídas da sociedade.E o direito penal do inimigo legitimado por legislações e corporações para utilizar os aviãozinhos para o lucro de uma minoria, inclusive bancos e etc. Aviãozões repletos de cocaína somem rapidamente do noticiário. Nem ouvimos falar a respeito do desfecho. Eu vi. Prisão das mulas.

Esses aviões abastecem os narizes e os bolsos da elite política e econômica do mundo enquanto utilizam a massa pobre varejista como o inimigo do Estado a ser combatido.

Rotulam todo e qualquer vendedor de maconha como Pablo Escobar ou zé pequeno (utilizam realidade e ficção para reafirmar essa rotulação) com poder de corrupção e autoridade para matar e mandar matar.

Recentemente vi um processo em que se trocava uma porção de maconha por um sanduíche do McDonald's, houve condenação por tráfico.

Boa sorte no caso!

Esperamos a trama completa. continuar lendo

Tudo é tráfico hoje em dia, é aquilo de "primeiro atire, depois pergunte". Enriquecedor o seu comentário, valeu, amigo! continuar lendo